Pela segunda vez num curto espaço de tempo interrompo uma curta pausa aqui no blogue para escrever sobre o tsunami económico que desta vez se prepara para se abater sobre Portugal. A primeira vez foi em 11/11/2010 num artigo intitulado “um país à espera de falir…” onde, sumariamente, expliquei para onde nos levava o caminho que estava a ser trilhado economicamente: a falência. Hoje cinco meses depois é exactamente aí que nos encontramos, na bancarrota, no descrédito total e de mão estendida aos nossos parceiros da Europa.
Depois do bailout à Grécia e à Irlanda e respectivos pacotes de ajuda desenganem-se aqueles que acham que vamos apenas passar um mau bocado e que nos safamos ao PEC IV, o presidente da Ecofin já declarou que as medidas a adoptar serão piores que esse PEC. As notícias no ar já anunciam um pequeno desastre, as campanhas de “saldos” de imóveis pela banca é uma mas os recados de Bruxelas são óbvios: Portugal vai ter que apertar dolorosamente o cinto. Mas o que temos pela frente e como chegamos aqui?
1) Começo pelo fim: chegamos aqui pela incomptetência pura de não conseguirmos controlar um estado que tudo consome, que suga a economia, um estado cujo tamanho e apetite é colossal. Mas também pela incapacidade de gerir as nossas vidas particulares, de deixarmos de lado hábitos de poupança, um exemplo talves para se relativizar isto: por cada 100€ que um português pede emprestado, 87€ vêm de fora, ou seja apenas 13€ são provenientes das poupanças dos portugueses. Número esmagador e brutal, 87€ em cada 100€, é um espanto como isto não descarrilou mais cedo. Deixamos de lado hábitos de cidadania como o voto – a abstenção nas últimas eleições presidênciais é demonstrativa disso: 57% – e em consequência perdemos qualidade de governação, preferimos os paraísos tropicais por troca de qualidade de vida (lembro-me de há cerca de cinco anos a SIC ter entrevistado alguém em plena praia no Brasil e às tantas o entrevistador, com a crise em pano de fundo, pergunta como o entrevistado tinha dinheiro para pagar as férias, resposta pronta: quando chegar a casa não pago a luz ou a água, logo se vê, agora quero é estar aqui), preferimos ser pobres mas com carro e casa cujas prestações nos esganam e nos empurram para as compras com o cartãozinho de crédito.
A notícia que refiro acima de que os bancos estão a saldar as suas carteiras de imóveis é o sinal de que estamos com um sub-prime cá e que muito do nosso crescimento foi à custa (e isto não é só um mal português) de uma bolha de imobiliário que se prepara para rebentar. Cobrir o país de betão e alcatrão foi giro por uns tempos mas a factura chegou e tem data de pagamento apertada. É também sinal de outro problema: que se calhar o crédito mal-parado tem sido mascarado à custa da incorporação dos imóveis nas carteiras de activos dos bancos, em vez do cliente entrar em default puro o banco compra-lhe a casa pelo preço da dívida e assim o banco livra-se tecnicamente do default do cliente e este livra-se da casa que não pode pagar nem consegue vender. Imaginem isto multiplicado à escala nacional e façam contas do que isto vai fazer ao mercado imobiliário…
Um estado papão, de compadrios e jobs for the boys, de ex-ministros que depois de deixarem o governo são admitidos em empresas com que realizaram contractos enquanto ministros, auto-estradas essenciais para circularem cerca de 20 veículos por dia, um sem fim de loucuras financeiras, as PPP que mais não são do que pôr os contribuintes todos a pagar por algo que apenas os utilizadores deveriam pagar e feitas à medida de trâfego/número de doentes/passageiros absolutamente irreais e que o nosso estado aceita sem reclamar, sem discutir, sem negociar…
E depois disto tudo o surrealismo supremo: eleições. No estado em que já estavamos o timing foi absolutamente estúpido. Entenda-se que depois do PEC IV até ao V seria apenas uma questão de tempo mas seria tempo que se ganhava sem dar esta triste sensação de que neste país se faz juz ao ditado que “em casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão”. Nas horas a seguir ao chumbo do PEC ler a imprensa estrangeira foi confrangedor, ficamos carimbados como uma cambada de lunáticos que em vez de resolver os problemas andam à chapada uns aos outros. Estes portugueses são loucos diria o Astérix.
2) Para onde vamos? Arrisco que para um pântano de onde vamos demorar anos a sair, atolados de dívidas (números não-oficiais estimam que a dívida combinada estado/particulares já está nos 125 a 130% do PIB), com a economia em recessão e a não conseguir criar empregos, impostos altos, euribor a subir, tudo somado para transformar, na melhor das hipóteses, os próximos anos num pequeno inferno. Na terça-feira chega cá a primeira comitiva FMI/EU/BCE para avaliar o real estado das nossas finanças públicas que irá avaliar como e onde se vai cortar e quanto. Talvez seja da minha natureza pessimista mas acho que vamos por um caminho em tudo idêntico ao da Grécia: cortes imediatos de 10 a 15% nos salários na função pública (e se isto não “corrigir” daqui a uma ano serão as empresas privadas a fazer o mesmo para sobreviver), não pagamento do subsídio de férias e/ou natal, despedimento de alguns funcionários públicos, extinção de serviços, nomeadamente autarquias e juntas de freguesia, levando ao emagrecimento do estado e ao pagamento das nossas dívidas aos nossos credores. É isso que eles vêm cá fazer: assegurar aos nossos credores que vão receber, esqueçam tudo o resto, isso é o seu ponto focal, o seu objectivo, o de que Portugal vai honrar os compromissos que tem. Não trazem soluções para a economia crescer, não trazem empregos, impostos mais baixos nem combustíveis mais baratos, nada disso, trazem na mala dinheiro para pagarmos compromissos já assumidos e a assumir, a juros mais baixos e em troca querem medidas que assegurem que vão receber o seu investimento de volta. Vão tentar evitar por todos os meios uma reestruturação da dívida e que os credores recebam os juros chorudos que nos têm cobrado, ao mesmo tempo o FMI dá como dado adquirido a falência de Portugal e ada Grécia. É engraçado (de uma forma triste) perceber que vamos saltar da frigideira para o fogo e que estamos sem outras opções…
Lojas vão fechar às catadupas, empresas vão falir, mais empregos vão desaparecer, o imobiliário vai entrar em colapso e os bancos vão passar um mau bocado. O dinheiro fácil acabou, a torneira fechou e só vai abrir para empresas sólidas com projectos viáveis. As empresas mais pequenas e com pior rating vão passar um mau bocado porque ninguém lhes vai financiar projectos e se financiarem será a preços incomportáveis. A festa acabou e de forma abrupta e brutal, no final desta operação de resgate vai existir uma geração, repito uma geração, que nunca conheceu um emprego estável, um ordenado compatível com a sua educação, uma vida normal e estável. Daqui a dez anos, no final desta crise, a geração que estará com a idade compreendida entre os 35 a 45 anos nunca teve o que a geração que hoje tem essa idade teve e isso é o mais trágico disto tudo, o desperdiçar de energias de uma geração inteira que estará eternamente à rasca, sempre no desenrasca, no fio da navalha, na insegurança e na esperança de um amanhã melhor que nunca lhes vamos conseguir proporcionar. Trágico.
Porém nem tudo é mau e depois desta travessia que nos aguarda temos uma tela em branco que só de nós depende como vai ser pintada: novamente em tons escuros ou desta vez em tons mais luminosos. Depende de nós encontra soluções que nos permitam crescer sustentavelmente, com rigor e com investimento em áreas produtivas e com capacidade de serem vendidas em contrapartida ao imobiliário, que a justiça seja finalmente justa e célere, que os impostos sejam equitativos, baixos e rigorosos, que esses impostos sejam empregues ao serviço de quem os paga e não ao serviço de quem paga as campanhas eleitorais, mas sobretudo uma política fiscal com planos a dez anos de forma às empresas poderem conhecer o que o futuro lhes reserva. Aos particulares pede-se o mesmo rigor, o mesmo planeamento de gastos e de produção que se pede ao estado. Se conseguirmos cumprir isto tudo já não era mau e os nossos sacrifícios teriam servido de alguma coisa. Algo me diz, o meu pessimismo de certeza, que depois dos três anos em vamos ter ajuda do FMI/EU vamos ter mais do mesmo, de crise em crise até a um novo bailout… Em 37 anos de democracia este é o terceiro bailout em que nos encontramos e isso quer dizer muito sobre os nossos hábitos enquanto país, como produtores, criadores de riqueza, gestores da coisa pública e privada. E como sabem há hábitos difíceis de abandonar e viver à custa dos bailouts pagos por países que se sacrificam para que outros se divirtam é um deles.
Mas isso sou eu, Mário o pessimista, que espero que seja brutalmente desmentido pelos factos. Aliás tenho uma secreta esperança de que os factos me venham a desmentir e que este artigo seja apenas o resultado do velho do Restelo que ainda há em mim.
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