Um projecto que cruza inteligentemente fotografia e artes plásticas que como ex artista plástico me agrada bastante. Estes projectos que usam a fotografia como base de um trabalho de técnica mista abrem novos horizontes à fotografia, nem todos no entanto conseguem fazer uma utilização que não altere radicalmente a percepção por parte do público que estão perante uma fotografia e não uma montagem e/ou pintura. Olaf Breuning consegue fazer essa ponte entre várias artes e no entanto continuamos a entender o seu trabalho como fotografia. É um trabalho bastante contemporâneo e o autor tem um currículo de exposições – e não só – invejável. A descobrir portanto.
Mensagens com Etiquetas ‘foto contemporânea
Olaf Breuning.
Maciek Jasik
© Maciek Jasik
Gosto bastante da série ‘portrait‘ deste fotógrafo. Tenho uma espécie de apetência natural para este tipo de retrato contemporâneo. A sua série ‘a thousand souls‘ é também bastante interessante.
Carlo Van de Roer.
Conheci o trabalho de Carlo Van de Roer através da 20×200 e da sua série ‘Swim‘, foi um trabalho que me captou a atenção (e que está na minha shopping lista da 20×200) pela atmosfera tranquila que consegue captar em cenas banais do quotidiano balnear. Existem nas suas fotografias uma certa sensação de solidão, de desfazamento e de afastamento; reparem na primeira fotografia que ilustra este artigo e vejam como os figurantes não só se apresentam de costas viradas em relação aos outros mas também como se afastam uns dos outros.
Outra séria que gosto particularmente é a ‘Orb‘, aqui num registo mais esotérico e rico de significados paranormais, no sentido em procura uma nova linguagem para os registos de orbs – pequenas esferas de luz que os pesquisadores de fantasmas reclamam como provas da sua existência – e a actualiza. Interessante este jogo de linguagens entre o paranormal e seus chavões, o nevoeiro é um deles, e as suas fotografias da série acima (Swim).
Esta fotografia é um das minhas favoritas e acabei por a comprar na 20×200 e apesar de ter sofrido um ‘acidente’ nos CTT já foi substituída por uma nova e faz parte da minha colecção pessoal.
Lisa Wiseman.
Gosto bastante dos retratos de Lisa Wiseman, particularmente da forma como capta a tristeza encenada por cada um dos retratados. São fotografias tranquilas, serenas, de uma beleza invulgar que mudam a perspectiva clássica do retrato e o moldam através do uso de uma linguagem contemporânea. Não admira portanto que tenha sido uma das nomeadas para o PDN30 de 2009. Excelente trabalho.
Dan Winters.
Hoje um apontamento de retrato visto de um através de um olhar particularmente contemporâneo. Não é fácil inovar numa disciplina tão votada nos últimos anos, ou até últimas décadas, ao lugar-comum e repetição de estereótipos. Dan Winters consegue um conjunto muito interessante de retratos, bastante diversificado mas mantendo sempre uma especial coerência ao mesmo tempo que edifica um cenário que emoldura de forma eficaz e perspicaz os retratados.
Também me mereceu especial atenção as suas ‘constructions’, especialmente construídas para ilustrar determinado artigo e depois cuidadosamente fotografadas.
No geral um trabalho fresco e bastante interessante de um artista polivalente (fotógrafo/desenhador/escultor) e que merece uma atenção particular.
Debbie Fleming Caffery.
Spirit & the flesh foi uma das séries que me despertou a atenção nestes últimos meses e já foi editada em livro com o mesmo título. Fotografada essencialmente em bordéis no México Spirit & the flesh é uma obra recheada de mistério, nudez e mulheres esquivas que apenas deixam transparecer formas sensuais e que corporizam desejos intímos de sexo e fantasia.
As fotos escuras e sombrias retratam na perfeição todo um mundo que vive nas sombras.
Será um dos trabalhos a seguir aqui neste blogue nos próximos tempos. O livro pode vir a ser um dos candidatos a livro do ano aqui no Elogio da Sombra.
America – Zoe Strauss.
America de Zoe Strauss
Hardcover, 304 pg
AMMO Books LLC (2008)
ISBN: 9781934429136
Depois de ‘The Americans’ e ‘América furtivamente’, de Robert Frank e Henri Cartier-Bresson respectivamente, ainda é possível captar o intímo da América?
Desde sempre a América enquanto sonho colectivo foi tema de várias monografias, desde Frank a Soth, a fotografia sempre gostou do american way of life mas fora das luzes da ribalta existe uma zona de território rural e interior para quem o american dream se tornou num pesadelo. E nos dias de hoje nem precisa de ser rural e pode muito bem uma periferia urbana, longe do centro da cidade, com uma população pobre, sem educação e excluída.
É esta a America de Zoe Strauss, a antítese do sonho americano, que nos é apresentada neste trabalho.
Técnicamente é um trabalho low-tech, efectuado ao sabor de um road map aleatório, com máquinas baratas e de baixo orçamento. A qualidade do livro está de acordo com o método de captação de imagem, longe portanto das impressões luxuosas mas mesmo assim não deixa de ser um livro com uma impressão razoável e dimensão adequada não muito longe do A4, maior teria sido impossível dadas as limitações de captura com câmaras compactas e SLR digitais de gama baixa (Nikon D70 por exemplo).
Mas onde o livro nos agarra é nas imagens sobretudo pela relação que Zoe Strauss consegue construír em breves instantes com os retratados; é precisamente por aí que as ‘defesas’ que cada um tem ao ser abordado para ser fotografado caem, deixando assim livre o caminho para uma fotografia que consegue transmitir algo tão intangível como o profundo sentimento por trás de um olhar. E de facto o retrato que Zoe Strauss capta da américa é o retrato do desalento e abandono, miséria e resistência de uma faixa populacional que vive nas franjas da sociedade. Não é um livro fácil portanto porque é crú o suficiente para ser directo e sem rodeios nem tentativas de embelezar nem julgar; o livro acaba por ser um despertar para a realidade através de um balde de água fria e um murro no estômago.
© Zoe Strauss
É difícil ver numa imagem deste tamanho mas a cara de desespero da jovem e o quase total alheamento da mãe fazem desta foto uma das minhas favoritas, a mãe provavelmente já desistiu de sonhar e limita-se a viver o que a vida lhe dá, a filha por outro ainda não desistiu de lutar mas talvez tenha percebido que o destino da mãe lhe está igualmente traçado. A mãe magra, com sinais de uma dependência qualquer, luta para se manter viva, a filha assiste a tudo como se fosse um filme e que depressa sairá da sala para viver o sonho que lhe está destinado. Que não irá acontecer por certo…
© Zoe Strauss
Outra das minhas favoritas que cresce a cada passagem no livro. O olhar do jovem da esquerda um misto de força e de resignação ainda lhe imprime um certo alento, uma vontade de resistir mas o homem da direita olha desanimado para um boletim de lotaria como se a última esperança de vencer acabasse de se desvanecer nas suas mãos e à frente dos seus olhos.
O livro em grande parte está organizado nestes pares de fotografias onde uma complementa a outra, num dialogo de intenções que nos obriga a ler as ‘entrelinhas’ das imagens, a estar atentos mas sobretudo que nos desarma completamente face à sua brutal frontalidade com que nos apresenta essas imagens. Zoe Strauss consegue o feito de fazer dos seus retratados pequenos heróis numa demanda por um sonho que teima em lhes fugir. É talvez a relação que Strauss constroi com os seus retratados que torna este trabalho tão singular, essa relação fugaz mas intensa que permite a Strauss conviver com essas pessoas, viver os seus dramas e contar as suas histórias.
Strauss permeia os seus retratos com o registo de um conjunto de sinais, reais e subentendidos, em estado de degradação visível onde o que resta são apenas as marcas da passagem do tempo. Vestígios de frases, sinais destruídos, tudo é aproveitado para manter o tom geral do livro em complemento, bem conseguido por sinal, às histórias que as personagens vão desfilando nos seus retratos.
Este conjunto poderia ser apenas mais uma reportagem, assim é um livro comprometido, politicamente incisivo e incorrecto, verdadeiro e genial. Com as suas fotografias de excelente composição mas sobretudo pelo contexto da sua obra, em plena administração Bush, America é um grito de alerta por um país que se desintegrava perante os olhos incrédulos dos próprios americanos. America é a crise antes da crise, uma ode negra e poética à falência do sonho americano.
Loja
Se desejarem podem comprar este livro através da loja Amazon do O Elogio da Sombra, obrigado.
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