Reconheço que estou bastante atraso à crítica de livros de fotografia e monografias, no entanto estou à procura da maneira ideal de o fazer por isso talvez ainda não vai ser de imediato que as coisas entram nos eixos rapidamente. Gostaria também de agradecer às pessoas que têm feito compras na minha loja da Amazon o que me permitiu receber um vale que reverteu para novas aquisições de monografias, por isso a todos que o fizeram o meu obrigado.
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Livros
Novidades do Japão…
Foi uma semana intensa mas foi pelo correio chegou aquilo que me ocupou os dias: uma nova encomenda da Japan Exposures. Foi remetida no sábado dia 14 e na quarta-feira seguinte estava cá.
Reconheço o meu ainda profundo desconhecimento sobre os fotógrafos japoneses e sobretudo das suas monografias, de facto não sabia o que estava a perder; pegar num livro japonês é de facto uma experiência importante para perceber os livros de fotografia. Nesse campo os japoneses estiveram durante muito tempo, e talvez ainda estejam, mais avançados em termos de design e organização em relação aos fotógrafos ocidentais. Os japoneses pensam no livro como um todo e as fotografias são escolhidas em função do conjunto e não em função de cada imagem, uma monografia japonesa deve ser analisada no global. Mas vamos ver algumas das escolhas que fiz:
Dragonfly – Koji Onaka
Este livro interessou-me bastante pelo uso da cor e pelo facto de estar assinado; de facto o último livro de Koji Onaka (e que faz parte de um conjunto onde se integra também este livro) esgotou e está bastante valorizado no mercado de usados.
A cor bastante garrida e por vezes sombria é usada para mostrar um Japão suburbano e industrializado, caótico e desorganizado.
Slowly down the river – Yasuhiro Ogawa
Yasuhiro Ogawa percorreu toda a zona da construção da barragem das três gargantas na China durante um longo período e captou a desolação e tristeza dos milhares de habitantes que foram desalojados para dar lugar a uma das maiores albufeiras do mundo. É um livro a cores que a usa como símbolo dos sentimentos dos retratados com excelente composição e uma história bem contada. Muito bom e altamente recomendado.
Tokyo aruki – by Nobuyoshi Araki
Um pequeno livro do Araki, uma deambulação pelas ruas de Tóquio e que tem a particularidade de mostrar a cidade pelos olhos deste mestre da fotografia japonesa de uma forma descomprometida e alegre ao longo de várias séries. De salientar que no final do livro – os textos infelizmente estão apenas em japonês – estão alguns mapas das zonas onde Araki andou a fotografar e onde estão assinalados os percursos efectuados pelo fotógrafo em cada série.
Zokushin – Hiromi Tsuchida
Reedição do clássico da década de 70, revisto, acrescentado de mais algumas fotografias em relação ao original e assinado pelo autor.
Fotografia a preto&branco, neste livro o fotógrafo retrata um Japão tradicional em vias de se perder no boom económico e político de abertura ao ocidente dos anos 60 e 70. Muito bom.
Nippon Gekijou 1965-1970 + Nanika e no tabi, 1971-1974 – Daido Moriyama
Estes dois livros recolhem a obra de Moriyama efectuado para revistas nas datas assinalados nos respectivos volumes. Aqui está Moriyama na sua máxima criatividade e é absolutamente imprescindível para contextualizar e estudar este famoso fotógrafo japonês. Vai ao pormenor de incluir alguns anúncios de época e de manter a paginação original.
Sally Mann – Proud flesh.
Após vários atrasos e adiamentos eis que a Aperture conseguiu finalmente editar o livro ‘Proud Flesh‘ da Sally Mann. Há já vários meses que estava pré-encomendado na Amazon Uk e finalmente hoje recebi o tão desejado pacote contendo o livro. Sem me alongar muito na análise ao conteúdo, aliás porque acabo apenas agora de lhe retirar a protecção de celofane, posso apenas afirmar que as imagens do livro são subtis mas ao mesmo tempo fortes, são – no habitual registo familiar que Sally Mann nos acostumou – uma demonstração de afecto incondicional por um sujeito tão próximo a Sally Mann: a família e neste caso concreto o seu marido.
A técnica de colódio utilizada por Sally Mann, e que pode ser vista no sexto e último episódio da série ‘The Genius of Photography‘ é perfeitamente adequada ao tema e é muito bem utilizada pela fotógrafa. Quanto à edição estamos perante mais uma obra-prima da Aperture sem dúvida, capa dura forrada a tecido com a fotografia que ilustra a capa impressa em papel grosso e com uma excelente qualidade de impressão, bem como todo o grafismo e design do livro.
Será o meu livro de cabeceira durante umas semanas e espero ter uma análise pronta dentro em breve para publicar aqui.
America – Zoe Strauss.
America de Zoe Strauss
Hardcover, 304 pg
AMMO Books LLC (2008)
ISBN: 9781934429136
Depois de ‘The Americans’ e ‘América furtivamente’, de Robert Frank e Henri Cartier-Bresson respectivamente, ainda é possível captar o intímo da América?
Desde sempre a América enquanto sonho colectivo foi tema de várias monografias, desde Frank a Soth, a fotografia sempre gostou do american way of life mas fora das luzes da ribalta existe uma zona de território rural e interior para quem o american dream se tornou num pesadelo. E nos dias de hoje nem precisa de ser rural e pode muito bem uma periferia urbana, longe do centro da cidade, com uma população pobre, sem educação e excluída.
É esta a America de Zoe Strauss, a antítese do sonho americano, que nos é apresentada neste trabalho.
Técnicamente é um trabalho low-tech, efectuado ao sabor de um road map aleatório, com máquinas baratas e de baixo orçamento. A qualidade do livro está de acordo com o método de captação de imagem, longe portanto das impressões luxuosas mas mesmo assim não deixa de ser um livro com uma impressão razoável e dimensão adequada não muito longe do A4, maior teria sido impossível dadas as limitações de captura com câmaras compactas e SLR digitais de gama baixa (Nikon D70 por exemplo).
Mas onde o livro nos agarra é nas imagens sobretudo pela relação que Zoe Strauss consegue construír em breves instantes com os retratados; é precisamente por aí que as ‘defesas’ que cada um tem ao ser abordado para ser fotografado caem, deixando assim livre o caminho para uma fotografia que consegue transmitir algo tão intangível como o profundo sentimento por trás de um olhar. E de facto o retrato que Zoe Strauss capta da américa é o retrato do desalento e abandono, miséria e resistência de uma faixa populacional que vive nas franjas da sociedade. Não é um livro fácil portanto porque é crú o suficiente para ser directo e sem rodeios nem tentativas de embelezar nem julgar; o livro acaba por ser um despertar para a realidade através de um balde de água fria e um murro no estômago.
© Zoe Strauss
É difícil ver numa imagem deste tamanho mas a cara de desespero da jovem e o quase total alheamento da mãe fazem desta foto uma das minhas favoritas, a mãe provavelmente já desistiu de sonhar e limita-se a viver o que a vida lhe dá, a filha por outro ainda não desistiu de lutar mas talvez tenha percebido que o destino da mãe lhe está igualmente traçado. A mãe magra, com sinais de uma dependência qualquer, luta para se manter viva, a filha assiste a tudo como se fosse um filme e que depressa sairá da sala para viver o sonho que lhe está destinado. Que não irá acontecer por certo…
© Zoe Strauss
Outra das minhas favoritas que cresce a cada passagem no livro. O olhar do jovem da esquerda um misto de força e de resignação ainda lhe imprime um certo alento, uma vontade de resistir mas o homem da direita olha desanimado para um boletim de lotaria como se a última esperança de vencer acabasse de se desvanecer nas suas mãos e à frente dos seus olhos.
O livro em grande parte está organizado nestes pares de fotografias onde uma complementa a outra, num dialogo de intenções que nos obriga a ler as ‘entrelinhas’ das imagens, a estar atentos mas sobretudo que nos desarma completamente face à sua brutal frontalidade com que nos apresenta essas imagens. Zoe Strauss consegue o feito de fazer dos seus retratados pequenos heróis numa demanda por um sonho que teima em lhes fugir. É talvez a relação que Strauss constroi com os seus retratados que torna este trabalho tão singular, essa relação fugaz mas intensa que permite a Strauss conviver com essas pessoas, viver os seus dramas e contar as suas histórias.
Strauss permeia os seus retratos com o registo de um conjunto de sinais, reais e subentendidos, em estado de degradação visível onde o que resta são apenas as marcas da passagem do tempo. Vestígios de frases, sinais destruídos, tudo é aproveitado para manter o tom geral do livro em complemento, bem conseguido por sinal, às histórias que as personagens vão desfilando nos seus retratos.
Este conjunto poderia ser apenas mais uma reportagem, assim é um livro comprometido, politicamente incisivo e incorrecto, verdadeiro e genial. Com as suas fotografias de excelente composição mas sobretudo pelo contexto da sua obra, em plena administração Bush, America é um grito de alerta por um país que se desintegrava perante os olhos incrédulos dos próprios americanos. America é a crise antes da crise, uma ode negra e poética à falência do sonho americano.
Loja
Se desejarem podem comprar este livro através da loja Amazon do O Elogio da Sombra, obrigado.
2008 – livro do ano.
Poucos livros terão tido uma influência na fotografia de reportagem como ‘the americans’ de Robert Frank. Um clássico que chega a 2008 já com 50 anos de vida e é precisamente esta edição que comprei, é um livro difícil de encontrar mas encontra-se bem na Amazon e em algumas livrarias em Portugal, onde segundo sei não esgotou. The Americans é um retrato crú dos EUA, por vezes eufórico por vezes deprimido mas não deixa de ser um olhar lúcido sobre as entranhas de um país em construção, à deriva no seu próprio sonho. No global é um grande livro, uma espécie de poema visual que deve obrigatoriamente figurar na estante de qualquer apreciador de fotografia.
Definitivamente o livro do ano.
Phone sex by Phillip Toledano.
Esta é uma pequena amostra do livro ‘Phone Sex‘ de Phillip toledano, editado pela Twin Palms e que mostra a face oculta das pessoas que estão atrás das linha telefónicas de sexo. Sem falsos moralismos nem julgamentos morais, Phillip toledano pretende mostrar que por trás de uma voz está alguém e que tem motivações para fazer o que está a fazer, sobretudo acho que Toledano dá rosto aquilo que de contrário é apenas uma fantasia e que se esconde por trás de uma voz, sensual ou não, e da sua capacidade em satisfazer as fantasias de quem está do outro lado da linha.
O livro só estará disponível a partir do outono de 2008.
Chegou-me finalmente à mão o livro da Jessica Dimmock, ‘the ninth floor’. Às vezes não há nada como uma boa dose de realismo e realidade para esquecermos todas as discussões sobre o que é a fotografia hoje ou ontem e nos concentrarmos no essencial: a força das imagens. É certo que a técnica é essencial mas uma fotografia de excelente recorte técnico e sem alma é apenas um jogo de malabarismo e de demonstração do uso de ferramentas, nada mais. E realmente não me lembro de um projecto recente que me tivesse tocado da maneira como este me tocou, mais do técnica este livro transpira emoção e dedicação como já não via desde o excelente ‘satellites’ do Jonas Bendiksen.
Jessica Dimmock conheceu numa das suas deambulações a fotografar em Nova Iorque, um dealer de droga que a introduzir num nono andar de um prédio da cidade onde vivia um pequeno grupo de viciados em droga, das mais variadas proveniências e idades. Rapidamente Jessica viu uma oportunidade de agarrar nesta história e fazer deste grupo o seu tema principal para o seu primeiro projecto enquanto estudante de fotografia. Decidiu conhecer, conviver e trabalhar no seio deste grupo, não como um elemento de fora que chega, faz o seu trabalho e sai mas acompanhando-os dia-a-dia, na sua intimidade, e eles – talvez percebendo que Jessica poderia ser a sua voz, a voz que não têm – aceitaram a sua presença e alhearam-se completamente da presença da câmara e da razão pela qual ali estavam ambas, fotógrafa e câmara – fotografar. Assim num estado de alienação perante a câmara, todo este conjunto se passou a movimentar como se a fotógrafa fosse um deles, alguém que estava ali e que pertencia ao grupo. E esta intimidade, este desprendimento perante as câmara, resulta em imagens com uma força tal que facilmente nos sentimos no local, a ver e a sentir a dor dos intervenientes. Não é um livro fácil, não só pela temática mas também porque Jessica Dimmock conseguiu fugir ao estereótipo do retrato dos pobres desgraçados agarrados à droga. Muitas vezes o olhar dos intervenientes vagueia por mundos que estão longe da nossa realidade, perdidos em sonhos indecifráveis, apenas para repousarem após mais uma dose que os leva de volta ao seu mundo de fantasia. Mas quando este seu mundo choca com a realidade, quando é preciso fazer algo para obter dinheiro para nova dose, então toda a noção de humanidade desaparece: prostituição, pedir esmola, roubar, tudo serve para chegar à nova dose. Desenganem-se se acham que estas decisões são tomadas de ânimo leve: há um confronto, uma réstia de esperança que rapidamente se transforma em raiva e que transborda para os restantes – vêm-se várias discussões e lutas entre casais e residentes – o ambiente é de completo caos e ruína; por todo o apartamento está espalhado todo o tipo de lixo: mobiliário partido, roupa, embalagens – tudo o que possam imaginar. Há no entanto momentos onde se vêm sorrisos ternos e inocentes (grande partes dos residentes são jovens, alguns muito jovens), como se no fundo a esperança de saírem dali ainda não estivesse completamente perdida.
Há neste livro um relato que me tocou particularmente, um casal que teve um filho e que já nasceu dependente da droga, a mãe grávida injectava-se regularmente e o filho recebeu a droga via cordão umbilical. É talvez a única vitima inocente no meio deste caos, o único que dependia de drogas não por opção mas por obrigação, por não ter outra hipótese.
O livro não se destaca pela técnica nem pelo domínio do Photoshop, antes pelo contrário: enquadramentos estranhos, ruído, imagens desfocadas, tremidas, etc. Mas destaca-se pela alma que consegue colocar em cada fotografia, cada uma delas conta uma história, sem querer ser o foco da atenção; não, o foco está centrado naquelas pessoas, na sua história e drama. Fotografias com uma carga emocional e dramática, sem lamechices e lágrimas de crocodilo (passe a expressão), como já não via há um bom tempo, longe do glamour da passarela ou do brilho das celebridades, aqui Jessica Dimmock mostra pessoas reais com um vida real e imperfeita. No texto final, a fotógrafa desvenda algumas das histórias dos intervenientes e da motivação que a levou a realizar este trabalho durante três anos num texto bem escrito e que lança um olhar muito interessante sobre este seu trabalho.
Se o encontrarem, a Fnac já o tem em importação, não percam a oportunidade de o folhearem e de ter na mão o melhor livro de fotografia de 2007 (o satellites é de 2006). Já estraguei a surpresa, por isso já sabem qual é o melhor livro de fotografia de 2007 na minha opinião.
Custa 45€ e pode ser encontrado na Fnac, Amazon uk e em algumas boas livrarias. Ganhou o prémio de melhor livro de fotografia ‘International Award for concerned photography’ e foi apoiado pela Fabrica, que pertence ao grupo Benneton. Mais informação pode ser consultada no sítio da editora, a Contrasto e no sítio da FFF.


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