
Escrevo este texto pela perspectiva de alguém que é um fã incondicional dos Joy Division, cresci a ouvi-los e tenho-os como um dos grupos mais influentes de sempre. Dito isto, avanço para o filme.
Comprei a edição especial em dois dvds por um preço aliciante – 11.95€ – e na primeira oportunidade não resisti a vê-lo. O filme da autoria de Anton Corbjin é baseado na obra Touching from a Distance, escrito por Deborah Curtis, a viúva de Ian. O preto&branco adapta-se à história mas já é um cliché na obra do realizador/fotógrafo e o filme aguentava bem a cor, embora numa tonalidade mais des-saturada, nada de novo aqui portanto.
O que mais me espanta no filme é a falta de ‘dimensão’ nas personagens, quase todas são transpostas para o ecrã de uma forma unidimensional, sem tensões nem contradições, fazendo apenas o que se espera delas, e o caso mais gritante será o de Annick Honoré que no filme não passa de uma personagem perdida no sentido mais literal da palavra. De Annick não retemos uma única sentença ou frase que a defina como ser humano, no centro de toda aquela tragédia, e talvez um dos catalizadores para o desfecho da história. É pena mas não é caso único, o papel de Tony Wilson e da banda não é clarificado nem preciso em todo o desenrolar do filme e a banda não passa mesmo de um adereço que era necessário colocar lá e pouco mais, na realidade e como se veio a verificar nos restantes membros dos Joy Divison existia uma força criativa que transbordou para os New Order com os resultados que se conhecem.
Toda a situação de conflito interno de Ian é descrita a vol-de-oiseaux e exemplo disso é abordagem à situação profissional que num take particularmente desinspirado é atirada para o enredo – numa conversa sem sentido entre o chefe de Ian e o próprio – onde Ian é pressionado a escolher entre a banda e o emprego no centro de desemprego mas que depois não tem continuídade na narrativa. Por todo o filme abundam pontas soltas, peças narrativas sem saída e situações não resolvidas. A própria narrativa da relação Ian-Deborah-Annick está minada por clichés, Ian é o autor semi-louco e apaixonado pela mulher errada e que não quer tomar uma opção, Deborah a mulher que faz tudo pelo marido que a humilha e Annick é o amor inconsequente, mais banal era difícil…
Hoje, passados 28 anos, era preciso talvez abordar o tema com uma outra espessura e isenção, e o facto de Deborah Curtis ser a produtora não ajuda muito nessa matéria. Em termos puramente biográfico poderá ser interessante para conhecer a história de Ian curtis mas a sua contextualização na época e na história da música não é feita nem as relações dentro da banda são claras. Parece que as outras personagens são transparentes e que não têm uma ligação intíma com Ian, o que se lamenta sobretudo a ligação com os outros elementos da banda.
As tensões, dúvidas e todo o sofrimento de Ian são desbaratados a troco de uma certa tentativa de meter tudo num filme de 117 min., é um facto que não o conseguiram. De fora fica muita coisa, talvez o mais importante, que na minha opinião é o de saber qual o estado de espiríto com que Ian se confrontava para escrever algumas das canções mais tristes e soturnas da história da música como a conhecemos, de como todo o seu conflito interno no triângulo amoroso onde se colocou o influenciou a tomar a decisão de pôr fim à própria vida. Faltam dados, espessura dramática e dimensão às personagens para o sabermos. Um flop, portanto. Salva-se a fotografia, valha-nos ao menos isso.
Para colmatar estas falhas o melhor será avançar para a leitura de entrevistas, nomeadamente a de Deborah Curtis ao The Guardian, a de Annick Honoré ao Side Line e uma visita ao photostream no Flickr de Barney’s Angels que tem uma colecção impressionante de fotografias da banda New Order (e de Annick também), reproduções de entrevistas, etc.
Outra fonte de informação é o livro Torn Apart: The Life of Ian Curtis de Lindsay Reade, ex-mulher de Tony Wilson e que se baseou na troca de correspondência entre Ian Curtis e Annick Honoré.
No global fica-se à espera de mais e melhor mas não deixa de ser um biopic interessante para quem quer conhecer a história da banda e depois se aventurar na música, que aliás é um pouco esquecida no filme. Duas horas de filme para ver e não sei se resistirá ao tempo, encaro-o mais como um documentário incompleto e como mais uma peça entre tantas para se entender Ian Curtis e os Joy Division. Se ficar a vontade de conhecer a música já serviu para alguma coisa.
Nota final: os links dos livros são para a minha loja da Amazon. Boas compras.

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