O que é a fotografia de natureza hoje? Foi essa pergunta que aqui fiz há uns dias atrás e que recebeu duas respostas que na minha opinião são o sinónimo do desafio que enfrenta hoje a fotografia de natureza.
A do Zé Maria reflete um olhar mais tradicional sobre a maneira como a fotografia deve retratar a natureza: as paisagens belas, intocadas (apesar de milhares de pessoas lá passarem por ano…), com uma luz dourada, sem marcas da presença do homem. O diogo prefere perguntar onde está o olhar contemporâneo sobre a natureza.
O problema é que estas duas visões são antagónicas: uma pretende mostrar uma natureza segundo padrões que, infelizmente, já não se aplicam ao estado actual, o outro pretende actualizar o olhar fotográfico sobre o tema e fazer uma reflexão actual sobre o seu estado. É assim que entendo as vossas respostas, posso estar enganado e estou preparado para que mo demonstrem.
Tenho como certo que hoje os fotógrafos de natureza não podem nem devem escapar ao estado actual da mesma e que o seu registo deve ser orientado para a relação homem/território/natureza. Isso implica um novo olhar e uma nova reflexão sobre a fotografia de natureza, rompendo estereótipos e métodos tradicionais de olhar para o tema; acho que era isto a que o diogo se referia. Por outro lado o Zé Maria prefere uma fotografia de natureza onírica que nos faz querer estar naquele local, ir de visita lá e/ou largar tudo e viver num lugar ainda intocado pela mão humana, sem estradas nem ruas apinhadas de trânsito; eu percebo bem este ponto de vista. No entanto reconheço que esse mesmo ponto de vista, apesar de tentar através de imagens que as pessoas se ‘apaixonem’ pelos locais envolvendo-se depois na sua defesa, ignora o estado actual da natureza e o facto de que talvez as pessoas precisem mais de ver alguma da devastação causada pelas suas acções do que santuários da natureza já completamente devassados pela humanização – veja-se o caso do Gêres – ignorada depois pela objectiva ‘selectiva’ do fotógrafo.
Não sei o que se passa convosco mas frequentemente sou confrontado em locais recomendados, por alguns bons fotógrafos de natureza, com lixeiras, entulho por todo o lado, canos de esgoto e campos mais ou menos agrícolas encharcados de pesticidas e fertilizantes; e sim acontece-me com frequência mesmo em zonas de protecção natural, rede natura ou parques naturais.
Agora a questão fundamental: pode um fotógrafo da natureza ignorar este facto? Podem os fotógrafos de natureza continuar a fotografar como se isto não estivesse a acontecer no terreno onde estão? Não me entedam mal, os fotógrafos de natureza podem e devem mostrar esse lado deslumbrante da natureza selvagem mas não deveria estar a nascer também uma nova geração de fotógrafos mais preocupados em documentar e assinalar no terreno tudo o que não queremos ver e que arrumamos desleixadamente no ‘quintal das traseiras’ e onde esperamos que ninguém vá espreitar? E se o vizinho for espreitar, ele que ignore o lixo e que esteja atento aos canteiros de flores que lá nasceram espontaneamente…
Entendo que há lugar para ambos os estilos mas preferia que a fotografia de natureza se actualizasse de forma a documentar o estado das paisagens na actualidade, modernizando ao mesmo tempo o seu discurso. Mas isso sou eu quanto a vós não sei…
Concordo igualmente com esta tua definição. Digamos que, no estado a que as coisas chegaram, é dever do fotógrafo incluir no quadro aquilo que o degrada.
É um bom ponto de partida para uma visão mais interventiva deste tipo de fotografia. De certa forma, torna até a coisa mais fácil, já que não é mais preciso procurar enquadramentos que evitem mostrar o lixo. Fico com essa na ideia…
Abraço.
Zé Maria,
eu fiquei com a impressão de que era isso que pretendias evitar na fotografia de natureza, a captação das alterações introduzidas pela mão do homem – subtilmente ou não – nos locais de natureza que entendemos como ‘inviolados’.
Entretanto gostaria de ver o teu ponto de vista sobre o tema.
Sim, era a isso que me referia. Quando faço uma foto de natureza na qual existam elementos “humanos” com protagonismo, já não a classifico (nas minhas galerias) como “de natureza”, classifico-a mais como paisagem urbana ou rural, mas não de natureza.
Contudo, percebo o teu ponto de vista e acho-o válido.
Um abraço.