(parque de estacionamento da área protegida das lagoas de bertiandos)
Pergunto se vamos pagar para fotografar nas áreas protegidas e se é isto que vamos encontrar… ou isto
(lagoa do mimoso – a.p. das lagoas de bertiandos)
Ou talvez uma bateria, caso precise de energia para a máquina digital…
(rio estorãos- a.p. das lagoas de bertiandos)
Ou um saco para as compras…
(lagoa do mimoso – a.p. das lagoas de bertiandos)
Já aqui falei várias vezes sobre a questão de pagar ou não para aceder a áreas protegidas, concordo que o estado actual das coisas não pode continuar conforme está, sob o risco das áreas protegidas desaparecerem perante a nossa inércia, algo precisa de ser feito e já. Vários argumentos têm sido invocados para justificar o pagamento ou o não pagamento de taxas mas os fotógrafos de natureza têm uma responsabilidade acrescida nesta matéria porque dependem destes locais para trabalhar e precisam de olhar para esta situação de um outro ângulo. Devemos pagar para entrar em parques e áreas naturais se pagamos tantos impostos? A questão no entanto é: o que temos hoje sem pagar e o que queremos ter se amanhã formos taxados? A resposta é simples: na primeira temos o que temos hoje (e vou exemplificar mais abaixo o que temos hoje…), na segunda podemos exigir uma alteração radical da maneira como se olha em Portugal para as áreas e paisagens protegidas. Os nossos impostos não são um poço infinito onde podemos obter funding ilimitado e onde existem recursos infinitos, são necessários para a saúde e para o ensino, escolas, estradas; se assim é pouco ou nenhum sobra para a defesa do ambiente – o que diga-se até dá algum jeito e que justifica atentados como os famosos PIN – que habitualmente fica em último lugar a fazer companhia à cultura.
Não é possível os fotógrafos de natureza continuarem a trabalhar de costas viradas para as entidades que supervisionam as áreas naturais e vice-versa, é uma situação de perda-perda em que ninguém ganha com esta falta de diálogo; compete também aos fotógrafos lutar e defender os locais onde trabalham e que lhes permitem subsistir, ignorar isto e decidir que partir lá para fora é fugir à questão fulcral na fotografia de natureza: qual deve ser o papel dos fotógrafos de natureza na defesa da mesma? Divulgar os locais que em Portugal são autênticos santuários da natureza – e há vários em Portugal -, intervir na sua defesa são tarefas a que hoje um fotógrafo de natureza não pode fugir, Ansel Adams não se escusou a esse papel e os parques naturais dos EUA muito lhe devem. Os fotógrafos têm que ser partes integrantes da solução e não parte do problema mas não podem também ser o ‘bode expiatório’ que vai salvar os nossos parques à custa das taxas que lhes vão ser cobradas. Outras soluções mais interessantes poderão ser aplicadas: a reversão de uma comissão nas vendas de cada fotógrafo para a zona onde o fotógrafo fotografa habitualmente ou onde a fotografia foi feita, cedência gratuíta de fotografias para divulgação dessa área protegida, organização de workshops juntamente com o ICNB a preços convidativos para chamar visitantes às áreas protegidas ou então a montagem de um fundo que se destine a recuperar/salvar algumas dessas zonas.
O estado actual das coisas não serve, como me parece óbvio, a ninguém, nem ao ICNB nem aos fotógrafos. Até quando vamos todos continuar a falar de costas viradas uns para os outros não sei mas que de facto me parece que vai ser preciso sentar todos os intervenientes à mesa e discutir pontos de vista também me parece óbvio. Com o autismo constante e crónico do ICNB será, de certeza, uma tarefa complicada. Agora o estado português não se pode divorciar desta situação e depois espalhar outdoors pelo país a dizer que tem 700,000 hectares de áreas protegidas e piscar o olho ao turismo, levando as pessoas a escolher uma delas para passear. Como se pode ver será uma viagem inesquecível no meio dos sacos plásticos…
A finalizar deixo-vos aqui o meu testemunho pessoal, que é ao mesmo tempo um grito de alerta sobre o que se passa, por exemplo, em Bertiandos.
Começa a ser complicado ir para Bertiandos fotografar, no rio estorãos se não estiver muito (mas mesmo muito) atento não é díficil chegar a casa com restos de sacos plásticos espalhados nas fotografias, na zona da lagoa do mimoso o lixo é tanto que já é quase impossível virar uma lente para qualquer lado sem ver lixo espalhado, de sacos de plástico a latas de cerveja é possível ver um pouco de tudo.
Há três anos atrás era muito fácil encontrar, por volta desta época, nos pequenos charcos que circundam as lagoas várias espécies de rãs, hoje e após uma invasão de lagostins já é praticamente impossível avistá-las. Na altura questionei no centro interpretativo qual era a origem dos lagostins mas ninguém me soube responder no centro interpretativo, hoje estão desaparecidos – não sei como – e se durante algum tempo era possível avistar restos de lagostins que eram comida fácil para as lontras e aves, hoje nem lagostins nem rãs…
Tudo isto coincide com um aumento gradual nas visitas à área e já se vêem muitos turistas estrangeiros mas também muitos portugueses de outras zonas do país. No entanto o civismo de quem visita as lagoas ainda é bastante baixo, para não dizer inexistente, e na terça feira de carnaval cruzei-me com um miúdo que levava uma fisga com que ia lançando pedras a tudo o que se mexia…debaixo do olhar ‘embevecido’ do progenitor, provavelmente espantado com as capacidades de atirador do catraio.
Para não ver este triste espectáculo prefiro pagar e pagar um valor razoável como por exemplo os preços praticados no parque Yellowstone nos EUA do que não pagar e assistir à morte lenta deste local. Fechar a área e impedir o acesso indiscriminado de pessoas e viaturas parece-me a solução ideal, logo a seguir disciplinar e responsabilizar os agricultures da zona para não fazerem do rio estorão/lagoa do mimoso o seu balde do lixo, limpar o local de lixo e mato e colocar portagens. A precisar de uma atenção muito especial por parte do ICNB e da Câmara Municipal de Ponte de Lima…acabe-se de vez com a rebaldaria, falta de civismo e abandono. E salve-se Bertiandos deste sufoco…para que seja possível encontrar este cenário durante mais alguns anos:

Conclusão: Não só não melhorou, como está pior. A Oeste nada de novo.
É o que vês nas fotos… o abandono é total. E a explicação de que o lixo é arrastado pelo rio estorão e que vem das zonas populacionais é pobr, de facto estamos no área protegida e a limpeza deveria ser mantida a todo o custo. Enfim é o Portugal que temos.
Pague-se, para que menos frequentem, mas que essa verba contribua para benefício do local e não para uns quaisquer cofres de uma secretaria qualquer que fica lá por Lisboa e nem sabe onde fica Bertiandos, ou outra zona protegida que é o que muitas vezes acontece neste pobre País!
Algo terá de ser feito rapidamente pois só pela mudança de mentalidades ainda vai levar muito tempo.
Margarida, já aqui afirmei isso. Mas deixe-me dizer que não concordo com a afirmação de que ser cobrada uma taxa de entrada (justa, diga-se) nas áreas protegidas irá ter como consequência uma diminuição nas visitas; o que eu acho é que vai haver uma alteração radical no tipo de pessoas que as visitam. Hoje visita-se uma área protegida como se visita o parque da cidade no Porto: faz-se uns jogos da bola, piqueniques e outras actividades lúdicas como andar a apedrejar tudo o que se mexe; com a introdução de taxas começa a haver público para turismo de natureza feito em locais isolados, acessíveis a pé e com actividades que coloque o turista com o melhor que cada local tem para oferecer. Lamento informar mas esse turista, que hoje deixa o seu dinheiro em vários locais do mundo, não vêm a Portugal e basta ler o meu artigo para perceber porquê. Repare que pode acampar em quase todos os parques naturais dos EUA, porque não o pode fazer cá? Porque não existem guardas nem estruturas que permitam controlar os acessos, permitir o acampamento nesta altura era abrir o caminho para o campismo sem rei nem roque, como aliás já existe no parque da costa vicentina…
Precisamos como país que se quer virar para o turismo – e temos excelentes opções para isso – acabar com este estado de coisas e deixar de pensar que as áreas protegidas estão aí para apenas defender umas florinhas e uns quantos lagartos, estão aí para defender um património importante e que não nos pertence só a nós mas também às gerações vindouras. E os fotógrafos de natureza porque estão constantemente no campo precisam de alertar o público para este tipo de situações, também porque corremos o risco de ficar sem local de trabalho…mas essa não deve ser a razão principal para o fazer, como é óbvio.
Um abraço.