Está patente na galeria da Colorfoto no Porto a exposição Narcisa de Ana Teresa Vicente. O espaço situado na cave da loja é ideal para exposições, tem uma área considerável e bem iluminada.

Ana Vicente propõe uma abordagem contemporânea para o mito de Narciso, desta vez numa perspectiva feminina, ao mesmo tempo que coloca questões sobre a fotografia e a credibilidade enquanto suporte da verdade dos factos. Onde Ana Vicente falha no seu manifesto é precisamente neste ponto: se a autora nos diz que as imagens são encenadas como podemos nós questionar a credibilidade das mesmas? Mas as fotografias valem como corpo de trabalho independentemente do que se diz das mesmas e é isso que interessa, para já, analisar.
Onde acho que o trabalho da fotógrafa resulta menos é nas imagens de exterior onde a confusão de planos e pormenores não permite uma leitura limpa das fotografias. Aqui o tema é explorado na sua leitura mais directa, não deixando lugar a uma leitura mais subjectiva, mais contemporânea. Há no entanto um triptíco mais conseguido que os restantes, onde essa leitura resulta muito bem, apesar de, na minha opinião, se afastar das concepções originais da autora, o que não é forçosamente um defeito.

O trabalho de Ana Vicente brilha magistralmente nas fotografias de interior onde a relação corpo/espaço é bem explorada. Aqui um corpo feminino é retratado de uma forma que impede a sua identificação. É, portanto, um corpo anónimo que nos é retratado pelo espaço, como se o mesmo fosse um reflexo do ser, do mundo interior que habita, que conduz aquele corpo. Mais do que o mito de Narciso, aqui fala-se de um complexo mundo interior e que se transforma num reflexo, em algo que cada um de nós vê de maneira própria; mas o retratado também se vê através desse reflexo – é um perverso efeito de transfiguração do que vemos. O caos interior espelha-se através destes cenários abandonados – um espelho da solidão? – e em ruínas. O corpo, esse está lá mas é apenas um veículo que transporta todo este ‘mundo interior’ através de vários cenários.

Gostei desta parte do trabalho de Ana Vicente e gostei menos do seu trabalho de exterior. Mas tenho um certa afinidade por este tipo de trabalhos e é necessário levar este facto em consideração; no global a exposição é equilibrada e interessante. A Ana Vicente apresenta um trabalho coeso, bem estruturado e que adivinha boas perspectivas. Bom trabalho de impressão, boas molduras e um trabalho muito bom na colocação dos trabalhos numa sequência que permite uma leitura escorreita do trabalho. Uma boa escolha da Colorfoto para este seu espaço que ‘pede’ para ser usado com mais frequência.
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