Hoje apetece-me estar um pouco fora de sintonia com o mundo, especialmente com o mundo on-line.
Todos os dias leio na rede global que é a internet, as dúvidas mais bizarras que podem imaginar, todos os dias sou confrontado com pessoas que depois de adquirirem produtos que custam milhares de euros, andam nos fóruns a fazer perguntas simples que poderiam ser respondidas por quem lhes vendeu os produtos. Mas quem lhes vendeu os produtos? A resposta é quase sempre a mesma: loja virtual. Mas pergunto se não há ninguém que os possa ajudar e ou não sabem ou o call-center está localizado na Índia ou mandam-nos para a linha de apoio da marca, etc. Mas quando pergunto porque não compraram o equipamento numa loja especializada, a resposta é a mesma: por causa do preço.
Recentemente tive uma discussão acessa com um português que comprou nos Estados Unidos uma Nikon D80 que entretanto avariou e cuja garantia tinha sido emitida pela Nikon Europa. Como a D80 apareceu nos EUA ninguém sabe mas suspeita-se como: mercado paralelo. O homem estava furioso com a Nikon porque a marca não lhe queria reparar a máquina, nem que ele pagasse a reparação. Perguntei-lhe se ele achava bem a Nikon estar a apoiar o mercado paralelo e não os seus distribuidores oficiais, ficou ainda mais furioso porque achava que a Nikon o ‘obrigou’ a comprar nesse mercado porque os preços praticados na Europa são mais altos do que nos EUA. Admira-me o facto de que a máquina tivesse origem no armazém europeu…mas provalvelmente este pormenor deve-lhe ter escapado.
Estas mentes brilhantes surpreendem-me. Se querem apoio comprem na vossa loja habitual, se o que vos interessa é preço comprem na internet. Mas por favor não encham depois os fóruns com questões técnicas que poderiam ser respondidas ao balcão de uma loja. Nada substitui o contacto pessoal, nada. Ou julgam que depois de comprarem o equipamento, vai estar alguém a responder pacientemente às vossa dúvidas do outro lado da linha? Raras vezes isso acontece. Comprem localmente e poupem o ambiente, já agora pratiquem o que apregoam nesse sentido. Como diria alguém que conheço: ‘não há almoços grátis’, acrescento que quando os há, são pagos à posteriori, a factura vem sempre depois. Mas existe algo que ainda torna isto tudo mais perverso, o facto de grande parte das marcas já não incluirem manuais impressos nos equipamentos, colocando apenas um extenso pdf no cd de instalação. O que me parece é que grande parte das pessoas não lê esse ficheiro, ou porque é extenso ou porque é lido num ecrã. Mas e se não têm apoio de uma boa loja? Vão para os fóruns, evidentemente. E nem procuram no manual, desabituaram-se disso porque acham que os fóruns lhes resolvem tudo. E como compram on-line e são apenas bits e bytes sem rosto não existe uma relação de proximidade e confiança com a loja.
E alguém consegue pôr preço na relação de cumplicidade que se constroi entre loja e cliente ao longo dos anos? Eu não, basicamente acho que não tem preço. É uma relação de confiança, às vezes quase de amizade, que se baseia é certo numa troca comercial mas que vai um pouco mais longe, é saber que quem está do outro lado conhece as minhas necessidades e que me ajuda a decidir entre o equipamento ‘x’ e ‘y’. Quem está do outro lado sabe que volto quando preciso de novo equipamento e eu sei que conto com eles, é tão simples como isto.
Deus sabe as horas que já fiz perder o Leandro, o Bruno e a Mónica na Colorfoto, mas sou sempre bem atendido. Nunca uma dúvida fica por esclarecer. Deus sabe também as horas de cavaqueira passadas na Mundo Fantasma, entre livros de BD e jantares combinados. O Vasco sempre pronto a aconselhar mais um livro e o Marco sempre cheio de dicas sobre os últimos DVD´s.
E as horas passadas na Jo-Jo’s a ouvir discos sem conta, sempre com o Eduardo a trazer mais um vinil acabadinho de chegar? E há sempre a atenção de me guardar os singles de 7″ que vão chegando e que sabe que eu vou querer. E as trocas acesas de opiniões sobre literatura na livraria ‘Nova Fronteira’?
Isto meus amigos, vale muito, mas mesmo muito. Hoje estou um bocado farto destes tipo de queixas e elas são cada vez mais. Ninguém está livre de ser burlado mas não é disso que aqui falo, nem sequer das pessoas que por viverem afastadas dos grandes centros apenas têm a possibilidade de comprar on-line, falo de pessoas que vivem em grandes cidades, que conhecem o esquema mas depois esperam que as marcas sejam ‘compreensivas’. Claro, depois de lhes andarem a furar o negócio, vão de certeza ter toda a compreensão das marcas, mas a máquina ou lente arranjada é que não. Ou então comprem barato mas certifiquem-se que vão conseguir trabalhar com o equipamento, porque meus caros se procurarem ajuda nos fóruns vão ter tantas opiniões quantas as respostas recebidas. Ou como diz o nosso povo: ‘cada cabeça, cada sentença’. Resolvam-se.
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